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terça-feira, 13 de junho de 2017

No reino do prof. Bacalhau


Mariage d'Amour - Paul de Senneville || Jacob's Piano

Besame mucho - saxo -

Light in Babylon - Baderech El Hayam

A IGNORÂNCIA

A IGNORÂNCIA POR VEZES TEM CANUDO
CHEGA A HABITAR NAQUELES QUE SABEM TUDO
E DEPOIS DE OS OUVIR FICAMOS
MAIS POBRES COM MUITOS DANOS
POR NELES TER ACREDITADO
EMBORA NA VIDA O LETRADO
SEJA POR NORMA MAIS FAVORECIDO
NÃO É QUALQUER DOUTOR MAL PARIDO
QUE DE TUDO, DÁ CONTA DO RECADO
E MESMO O QUE DA CANA NÃO SABE FAZER O Ó
MOSTRA QUE HÁ DOUTORES QUE DÃO DÓ
QUE COM BURROS OMBREIAM LADO A LADO

António Garrochinho

ÁLVARO CUNHAL














10 ERROS DE PORTUGUÊS QUE ACABAM COM A SUA CREDIBILIDADE


A forma como escrevemos tem um impacto fundamental na nossa credibilidade.
Receber um email ou um orçamento com erros leva-nos a questionar, mesmo que inconscientemente, a competência de quem está do outro lado. No caso das empresas, quando há erros no site ou nos posts partilhados nas redes sociais, é a credibilidade da empresa que está em causa.
Na minha rotina de trabalho a ler e escrever há erros que vejo quase todos os dias. Listei-os para que não o apanhem a si também. Tome nota.
1. Há / à
A confusão entre o há com “h”, presente do verbo haver, e o à, sem “h”, que é a contração da preposição “a” com o artigo definido no feminino singular “a”, atrapalha muita gente. Uma dica que pode ajudar: se for possível substituir a expressão pelo verbo”existir” (sinónimo de haver) ou a frase implicar tempo, devemos usar “há”.
Exemplos: Há várias opções de cor. A empresa funciona há dez anos.
2. Ir de encontro / ir ao encontro de
Vejo muitas vezes este erro em propostas para clientes e emails que se pretendem mais formais, momentos em que não convém mesmo escrever com erros. Mas qual é o problema? Quando escrevemos “ir de encontro” para indicar que estamos em sintonia com a outra parte, estamos na verdade a dizer o contrário. A expressão correta a usar é “ir ao encontro de”.
Exemplo: Esperamos que esta proposta vá de encontro aos seus objetivos (estamos a dizer: seja oposta). Esperamos que esta proposta vá ao encontro dos seus objetivos (forma correta).
3. Há dois anos atrás / Na minha opinião pessoal
Estas redundâncias não são propriamente erros, mas a bem da simplicidade não há necessidade deste reforço. Basta escrever “Há dois anos” ou “Na minha opinião”. Afinal, todas as opiniões são pessoais. As frases ficam mais simples, mais curtas e são entendidas mais facilmente.
4. “Ciclo” vicioso
Esta é mais uma daquelas expressões que se usa em relatórios e documentos quando se quer impressionar. O problema é que a expressão “ciclo vicioso” está errada. A forma correta é “círculo vicioso”.
5. Tivesse / estivesse
A confusão entre o “tivesse” e “estivesse” está no chat do Facebook quando falamos com os nossos amigos, mas infelizmente está também nos posts que muitas marcas fazem na mesma rede. As duas formas estão corretas, mas enquanto “tivesse” deriva do verbo ter, “estivesse” é uma conjugação do verbo estar.
Exemplo: Se eu tivesse mais tempo e estivesse em Lisboa gostaria de sair convosco.
6. “Gratuítamente” /gratuitamente
Os advérbios de modo terminados em “mente” não levam acento. E não há exceções. Portanto, obrigatoriamente, gratuitamente, rapidamente, acentuadamente, facilmente, felizmente, etc. nunca são acentuados. Fácil.
7. ás / às
É comum sermos informados que o melhor horário para a reunião é das 14h “ás” 15h00 ou vermos num site de um restaurante que está aberto das 19h00 “ás” 23h00. “Ás” com acento agudo está relacionado com o universo do jogo (ás de espadas, p. ex.) ou pode ser usado para designar alguém que é muito bom em determinada atividade. Quando nos referimos a espaço ou tempo o acento deve ser grave (às).
Exemplo: Temos reunião das 14h00 às 15h00. Portanto, em horários o acento é sempre grave.
8. “Contatos” / Contactos
Quando visito um site português que tem o item de menu de contactos sem “c” fico logo nervosa. Em Portugal, apesar do acordo ortográfico, contactos mantém o “c”, dado que pronunciamos essa consoante.
9. “Fãn”
Este erro tornou-se muito comum com as redes sociais. As páginas têm fãs e eu posso ser  de alguém ou de alguma coisa. As palavras fãn e fãns não existem. “Fan” e “fans” (sem acento) são palavras em inglês.
10. Fala-se / Falasse
Mais um erro que povoa os chats nas redes sociais, mas infelizmente salta para sites, emails e posts de marcas. Fala-se é uma forma do presente do indicativo e refere-se a uma ação real. Falasse é uma forma do imperfeito do conjuntivo e designa uma ação provável.
Exemplo: Hoje fala-se muito de política, mas gostaria que se falasse mais de economia.
Um truque dos professores de português para não errar: construir a frase na negativa: “Hoje não se fala muito de política. Gostaria que não se falasse de economia”. Se o “se” muda de lugar, significa que é separado por hífen.
E desse lado, como é a sua relação com o português? Há erros que não desculpa?
Elsa Fernandes
Originalmente publicado em www.elsafernandes.com

PROBLEM


De pé



O que é certo é que resistir vem do latim. "Resistente" vem de resistere, suportar, resistir, ficar firme. É formado por "re", contra, mais "sistere", que é manter-se de pé. No fundo faz parte da nossa própria evolução, enquanto humanos, mantermo-nos de pé. Sendo uma constante, também não significa que as derrotas não sejam também uma constante ao longo da História: para além de haver vitórias, há também derrotas. 


Notável entrevista (VER ABAIXO )a uma notável antropóloga e historiadora chamada Paula Godinho. Estava a pensar nas eleições britânicas quando a li e fiz uma associação, talvez abusiva, ao percurso de resistência de Corbyn, de resto extensível a Sanders ou a Mélenchon, só para dar mais dois exemplos de políticos grisalhos, com capacidade de mobilização juvenil.

Os seus cabelos brancos são um activo, na realidade: como tantos outros, souberam resistir nas décadas de refluxo de todos os socialismos; ao contrário de tantos outros, talvez mais, numa certa classe, numa certa geração, não desistiram, não se venderam, não foram cooptados. Pelo contrário, mantiveram a esperança num tempo de refluxo.  A esperança é jovem e tem classe.

Os seus programas assinalam uma vontade, que não está naturalmente isenta de contradicções, de regressar à esquerda que fala de sistemas de provisão com princípios socialistas, por exemplo, abolindo barreiras pecuniárias no acesso ao ensino superior ou nacionalizando o que nunca devia ser privado (nacionalizando e não internacionalizando, note-se); assinalam uma vontade de regressar ao pleno emprego com direitos, combatendo a precariedade, ancorando a esquerda firmemente no mundo do trabalho; assinalam uma vontade de enfrentar a mais material de todas as questões, a ambiental. E nenhum deles foi em modismos intelectuais, sem futuro ou ancoragem popular, do género do rendimento básico incondicional. Nenhum deles desdenha o Estado-Nação, porque no fundo sabem que tudo o que não se conquistar aí não se conquista talvez em mais lado nenhum.

Os trabalhistas de Corbyn, os democratas da linha Sanders, a França Insubmissa de Mélencon lideram hoje as oposições nos seus países, recusando o triste fim do movimento, já aqui assinalado. São exemplos políticos revigorantes, com os acertos e os erros de quem está vivo para apostar no socialismo. Há mais por aí. Nunca se desiste.
Adenda cinematográfica. Não por acaso, os populares vídeos da campanha de Corbyn foram feitos por outro velho resistente chamado Ken Loach. Um dos que perdeu o combate contra Thatcher e contra o melhor sinal do seu triunfo, Blair. Um dos que nunca desistiu de filmar com todo o realismo poético. Nos seus filmes, de Terra e Liberdade a Eu, Daniel Blake, há um combate pela memória das lutas e um imenso e confiante desejo de que tenham continuidade, mas também gestos quotidianos de solidariedade que atravessam gerações: da neta de punho erguido no funeral do avô, combatente na guerra civil espanhola, à pungente amizade de Blake com a jovem Katie e os seus dois filhos. Daqui até ao Espírito de 1945 é só um passo. O futuro precisa mesmo de um certo passado.

ladroesdebicicletas.blogspot.pt

Paula Godinho. “A História é uma senhora lenta e a realidade é uma coisa muito rápida”

No livro que lançou, “O Futuro É Para Sempre”, fala das diversas estratégias da resistência e da construção dos tempos 









Paula Godinho é antropóloga, começou por estudar as continuidades. Nos campos, tudo parece repetir-se pela mesma ordem, como as estações e as colheitas, até que um dia, há muito tempo, estava em Trás-os-Montes a falar com uma curandeira e elogia-a: “A senhora sabe tanto, parece uma médica.” Ela começa a chorar e diz-lhe: “Pois é, sei curar muitas doenças, mas não consegui salvar o meu filho, que mo levaram os pides.” Para a antropóloga, isso foi um choque: a última coisa que se espera é que numa aldeia do concelho de Chaves, junto à fronteira, falem da PIDE. “Sobretudo quando se está a falar de papeira”, ironiza. A vida tem continuidades e colheitas, mas também tem momentos de rutura. E foi isso que Paula Godinho começou a estudar. A sua estrada de Damasco foi uma aldeia que acolheu refugiados republicanos espanhóis, foi cercada pela PIDE e teve um terço dos seus habitantes presos.
Há um livro de Althusser, a sua autobiografia, que tem como título: “O Futuro Dura Muito Tempo”. O seu livro tem como título “ O Futuro É Para Sempre”. Tem alguma razão para esse maior otimismo?
Quando se é professora e se tem alunos à frente, é melhor ser-se otimista, ou então é melhor mudarmos para cangalheira. O título do livro tem que ver com uma conjuntura em que o país entristecia. Quem mandava ia-nos dizendo, todos os dias, que o país não tinha futuro. Ora eu, todos os dias, nas aulas, confrontava-me com gente de 20 anos, e aos 20 anos só temos futuro. Por outro lado, comecei a ter a perceção: se calhar, as coisas sempre estiveram lá, mas eu não tinha momento para pensar isso. Apercebi-me de que nas minhas etnografias, ao longo da minha vida de antropóloga, mesmo quando recolhia memórias, o que as pessoas estavam a falar era do futuro. O que elas queriam era inscrever o que me diziam num tempo que pretendiam alongado.
No livro começa-se com uma história de um homem que vai plantar uma árvore sabendo que vai morrer antes de os frutos serem colhidos. Planta essa árvore para o futuro dos outros, mas não temos hoje uma coisa que é o contrário, que é uma aceleração total do presente em que o futuro parece nunca mais acontecer? 
Essa aceleração total do presente, ou essa perceção, provavelmente serve interesses determinados. Quando nós andamos tão acelerados, se calhar não temos tempo para refletir. E refletir é olhar para o tempo longo da História. Esta é uma obra de antropologia e também é uma obra que eu quero inscrita num tempo longo. Há um grande historiador catalão chamado Josep Fontana que, em 2013, publicou um livro chamado: “O Futuro É Um País Estranho”, fazendo alusão a uma outra obra de David Lowenthal chamada “O Passado É Um País Estrangeiro”. A ideia de o futuro ser um país estranho é, para Josep Fontana, uma forma de criticar a situação atual e dizer que o futuro sempre foi uma construção longa, que devemos coisas que conquistamos a gerações anteriores à nossa. Nos próprios trabalhos que eu tinha feito tinha verificado que o futuro era resultado de um tempo longo e que demorava muito tempo a conseguir. Vêm agora dizer-nos que as questões relacionadas com o progresso deixaram de fazer sentido, alegando que, neste Primeiro Mundo, não é possível pensar a humanidade e não há futuro. Enquanto antropóloga, estou preparada para lidar com as diversas culturas do mundo e tenho essa convicção de que o futuro não é um país estranho, mas que, se calhar, é mais fácil de ler numa região, que tenho visitado repetidamente, como a América Latina.
Não acaba por fazer uma espécie de arqueologia das resistências e de formas de resistência que nunca se concretizaram em nenhuma vitória?  
Quando se fala em resistência, e no livro fala-se em três tipos de resistência, temos de nos confrontar com vitórias e derrotas. O que é certo é que resistir vem do latim. “Resistente” vem de resistere, suportar, resistir, ficar firme. É formado por “re”, contra, mais “sistere”, que é manter-se de pé. No fundo faz parte da nossa própria evolução, enquanto humanos, mantermo-nos de pé. Sendo uma constante, também não significa que as derrotas não sejam também uma constante ao longo da História: para além de haver vitórias, há também derrotas. O meu livro, sobretudo numa das etnografias que eu trabalho, sobre o Couço, é um livro que também pretende olhar para as derrotas e o que podemos aprender com elas. Como diz Eduardo Galeano numa frase, que de resto serve de epígrafe ao livro: faz sentido continuar a resgatar as esperanças que fizeram enquanto humanos que resistíssemos; faz sentido interrogar e aprender com as ideias que, como dizia Marx, tinham de ser uma força material. 
Há uma cena na primeira parte do “1900”, realizado por Bertolucci, em que um proprietário de um latifúndio na Emília-Romanha, uma zona semelhante ao Alentejo, se volta para um assalariado rural e insulta-o, dizendo que ele tem as orelhas muito grandes. O camponês olha em desafio para ele, puxa da navalha, corta a sua própria orelha e entrega-a. Há uma geografia e uma história que formatam a resistência e que fazem com que as pessoas no Alentejo sejam diferentes das de outra região?
No livro, eu trato esse proletariado do sul. O que temos é uma camada que ao longo da História não tem memória de ter mantido a posse da terra. Aí existiu - temos dados para o Couço que falam de lutas desde o século xix - uma consciência de classe. Para usarmos os termos marxistas, temos uma classe em si que, num momento determinado, se torna classe para si. Noutros dois contextos do livro, um na Galiza e outro na fronteira que também pertence hoje ao Estado espanhol, estudam-se outras formas de reação. Por razões que se prendem com a estrutura social e fundiária, nesses outros locais, essas classes ou ficaram por construir ou não existiram nesse formato de classe. É o caso do Couto Misto, onde existiam grupos sociais mas não existia classe. Para a população do Couto Misto, uma das estratégias existentes não é a da afronta, ao contrário do Couço que, em momentos determinados, afronta, mas usar a arte da fuga que é o escapismo. Para a população do Couto Misto, ao longo da História - e os primeiros documentos que encontramos na Torre do Tombo datam do século xv -, essa é desde há muito a estratégia. Como se calcula, as aldeias não se chamam a si próprias Couto Misto. Nenhuma aldeia diz, de si, somos povo promíscuo. Ora bem, nessas aldeias do Couto Misto, a forma de resistir longamente foi o escapismo, foi nem sequer quererem ter identidade. A questão da identidade foi muito utilizada na antropologia desde os anos 80, mas ali não faz sentido, porque quanto mais camaleónicos fossem, melhor escapavam. O que é certo é que as três aldeias do Couto Misto viviam melhor que todas as outras na região. Viveram anos e anos sem pagar impostos à coroa de Portugal ou de Espanha. Ou seja, o escapismo era funcional como formato de resistência. No caso de outra etnografia que eu uso, a das costureiras de Verim, a forma de reação é diferente. Cheguei a esse estudo quando me apercebi das fortunas que no Estado espanhol foram construídas com base na costura. Ora eu trabalho aquela fronteira há 30 anos, e toda a vida me tinha confrontado com costureiras, mas imaginava-as - este é o vício do antropólogo - como as modistas de Lisboa, a trabalhar em casa. De facto, elas em Verim trabalham em casa; eu não as imaginava era a fazer 12 a 14 horas de jornada de trabalho e a fazerem os fatos, que hoje todos usamos, para as grandes empresas de pronto-a-vestir. Começo a fazer este trabalho quando me apercebo do papel que estas costureiras têm na constituição das grandes fortunas numa altura em que nos diziam que as grandes riquezas eram apenas acumuladas em processos financeiros e que era tudo plástico. Não era verdade. Ali havia uma acumulação que era devida ao trabalho destas senhoras. Entrevistei estas pessoas num momento da vida em que elas estavam sem emprego porque as grandes empresas externalizaram o trabalho para o Bangladesh, para o Brasil e para Marrocos, e estas senhoras ficaram sem trabalho. Curiosamente, num tempo mais recente, as grandes empresas voltaram a recrutar mão-de-obra local porque esses trabalhadores locais ficaram docilizados depois de anos de desemprego. Note que estas senhoras trabalham, como dizem, “ao negro”: não há descontos para a Segurança Social. E quando há, eles são feitos como “empresárias”. Aliás, no concelho de Verim, na viragem do século, quase toda a gente se dizia empresária.  
Esse trabalho em casa não permite nenhuma consciência de classe.
Aí não há. O termo que uso bebo-o numa grande antropóloga catalã, Susana Narotzky,  que fez com Gavin Smith um trabalho na zona de Alicante em que ali identificaram, para quem produz alpercatas, aquilo a que chamam - o termo é de Foucault - as lutas imediatas, que são aquelas em que, em vez de andarem a confrontar-se com o patrão, procuram um adversário que esteja ao mesmo nível. É a outra trabalhadora que pode ficar com mais trabalho do que ela, numa luta de mulher contra mulher. O inimigo é o inimigo imediato e está ao mesmo nível. É impossível forjar consciência de classe nestas circunstâncias. As mulheres que eu entrevistei são mulheres, inclusivamente, no que toca às entrevistas, que não queriam ser vistas a falar comigo porque eu já tinha sido vista a ir aos sindicatos. E isso podia-lhes prejudicar a quantidade de trabalho que lhes era distribuído. Foi das etnografias mais difíceis da minha vida porque elas desistiam de falar. Mesmo mulheres mais velhas, que tinham estado envolvidas no contrabando, me diziam: “Paula, já te contámos tudo do contrabando, mas isto é mais complicado.” Quando lhes perguntava a razão, elas diziam: “Porque podemos voltar a precisar, e se falarmos podemos ficar excluídas da distribuição do trabalho.” Esta luta de mulher contra mulher, em que o tipo que distribui trabalho é próximo e o patrão está longe, não gera consciência de classe, ao contrário do que se passava no Couço.  No Alentejo, o patrão é o inimigo, é identificável e gera luta, resistência e consciência de classe, que é compaginável com outras formas de resistência no quotidiano, para além do confronto.
Formas que no livro são associadas como a indolência no trabalho, a coscuvilhice, uma certa manha, ao nível daquela  anedota soviética que dizia: “Eles fingem que nos pagam e nós fingimos que trabalhamos.” 
Isso é uma constante para os três formatos (escapismo, lutas imediatas e confronto), aquilo que são as três práticas possíveis que todos nós usamos no nosso quotidiano. É aquilo a que o antropólogo e cientista político norte-americano James C. Scott chama as armas dos fracos. São aquilo a que ele também chama os formatos de discurso escondido. As armas dos fracos fazem com que as pessoas trabalhem mais devagar. Porque iriam fazê-lo mais depressa se vão ganhar o mesmo? As armas dos fracos passam pelo falatório e o boato, que arruínam reputações, passam por realizar mal o trabalho. Por exemplo, um homem recrutado para tirar a cortiça: se ele achar que está mal pago pode fazer com que o sobreiro nunca mais possa dar cortiça, basta dar-lhe o golpe mais fundo. Os patrões tinham de saber lidar muito bem com isso, porque um trabalhador descontente e mal pago pode destruir-lhe os sobreiros. São armas dos fracos porque, no momento em que forem confrontados, os trabalhadores que têm esse tipo de prática vão dizer: “Foi sem querer, não sabia.” A alegada ignorância é também um formato de resistência. Estas formas encarnam aquilo a que chamamos infrapolítica, não se veem à vista desarmada, como os raios infravermelhos. Também aqui há dificuldade em reconhecer a dimensão política destes atos e, todavia, eles são políticos. 
Hoje há um fenómeno diferente. Parece que o surgimento de uma dinâmica nacionalista e identitária impede e tira espaço ao surgimento de outras formas de confronto e contestação que se tornem ideias com força material. 
Olhe-se para o século xix - às vezes, observar o ciclo longo é útil para perceber melhor as coisas. Em 1848 acontecem duas coisas ao mesmo tempo: é a primavera das nações e, também no mesmo ano, sai o Manifesto Comunista, ao mesmo tempo que temos as nações a construir-se - porque o nacionalismo é do século xix, as nações podiam já existir mas não existiam cidadãos nacionais, não havia sequer línguas unificadas nem o reconhecimento de uma história comum. É no século xix que isso tudo vai acontecer.  E ao mesmo tempo surge um movimento de enorme importância que é internacionalista. A força material das ideias pode jogar em vários níveis. Porquê? Porque os campos sociais são elásticos: vamos ver quem ganha. Em certos momentos, uns são derrotados e recuam, e mais tarde podem avançar e ganhar. Este crescendo dos nacionalismos é também compaginável com formatos de resistência que se tornam também transnacionais. Agora, é verdade que a resistência, neste momento, não está no seu melhor.
Tem uma passagem do livro em que contesta um certo soberanismo e o regresso à determinação política das coisas no espaço nacional. Esse não é o único caminho possível contra um ultraglobalismo que é ditado por forças não democráticas dos mercados financeiros?
Esse é um caminho, mas não é o único. Há alguns anos, estava a ler etnografias sobre a Costa Rica em que o campesinato, para resistir à imposição da monocultura por empresas multinacionais que o fragiliza, cria ligas transnacionais de enorme importância. Temos movimentos a acontecer, tal como em 1848. 
Isso é contraditório com o aparente facto de que, nos sítios em que a esquerda à esquerda da social-democracia resiste melhor, cruza questões de classe com questões nacionais: é o caso da Irlanda, Catalunha, País Basco - até, de alguma forma, a teorização pelo Podemos da construção de um povo. E, simultaneamente, a aposta do cosmopolitismo parece casar bem pare certos setores intelectuais, como para a grande finança.
Aí casa outro fenómeno. Dizia há pouco que as nações são construídas a partir do século xix. Algumas, porque a correlação de forças não foi tão favorável, ficaram sem constituir-se como Estado-nação. E não podemos falar das nações como de futebol, que se divide em várias ligas. Não houve umas que conseguiram no século xix, e essas merecem, e outras que não conseguiram e seriam relegadas para uma segunda liga. Há, de facto, quem esteja a lutar ao mesmo tempo, vigorosamente, pelo seu direito a ser Estado-nação e não o faça a partir de um perfil conservador. Há quem não entenda que, nesse processo, todos os outros povos são inimigos. Quando se olha, por exemplo, para projetos de construção de nação como a Galiza, Catalunha e País Basco, percebe-se que os formatos de construção da nação não tem necessariamente de fazer um discurso em que os outros povos são vistos como inimigos.
No caso basco, o início do movimento nacionalista no século xix, com Sabino Arana, faz um discurso racista. Só no século xx é que as correntes abertzales (patrióticas), que se constituem em torno da ETA,  fazem um discurso não racista, dizendo que são bascos todos os que lá vivem.
Não conheço tão bem o nacionalismo basco. Conheço bem a Galiza. Mas pode--se dizer que é possível que gente, que tem a uni-la uma consciência de classe, considere que a construção de uma nação lhes pode ser útil para o reconhecimento dessa mesma consciência de classe.
Do ponto de vista da autodeterminação das pessoas, mas do ponto de vista de classe não pode fazer esconder este e tecer uma ilusão?
Uma coisa é o que nós gostaríamos que a força material das ideias concretizasse, outra é o que a realidade nos mostra. A História é, de facto, uma senhora lenta, como Eduardo Galeano nos mostra. É uma senhora que se move com lentidão; a realidade, às vezes, é muito mais rápida. E é difícil compaginar as duas. Quando olhamos o assunto de fora e à distância, além do tempo, podíamos pensar: “Isto podia ser tido assim.” Mas o que é facto é que não foi. 
 Havendo neste mundo condições reais cada vez mais desiguais, por que razão não há essa resposta?
Vai havendo, em nichos, mas o que se passa é que também temos meios hegemónicos que são poderosíssimos. Neste momento voltei a dar uma cadeira na faculdade que é Antropologia e Movimentos Sociais. A última vez que tinha dado foi em 2012, e nessa altura estávamos em Portugal sob o domínio de três entidades em que ninguém tinha votado [FMI, BCE, Comissão Europeia], mas que tinham desenvolvido um programa económico e político que nos fazia sofrer a todos. E eu trazia aos alunos extratos de telejornais, intervenções dos comentadores, dessas autênticas fábricas do consentimento que íamos tendo. Era o voltar a realidade ao contrário. Marx dizia que a ideologia era como a câmara escura, com a realidade virada do avesso. E isso passou a ser uma constante: todos os dias passavam nas televisões comentadores completamente alinhados, com pensamentos iguais. Essa terceira janela, como lhe chamou Paul Virilio, que é a televisão, tem esse papel. É claro que existem outros meios de chegar às pessoas, mas estas fábricas de consentimento têm um poder muito significativo. É evidente que é necessário criar contra-hegemonias, é importante que essa força material das ideias se erga também a partir daqueles para quem esses formatos da dominação merecem ser denunciados num tempo como este, como dizia o movimento Occupy Wall Street, em que são mesmo 99% contra 1%.  Quem o diz não é uma perigosa revista anarquista nem sou eu, mas a revista “Forbes”.  
Antigamente, o conceito de ideologia pressupunha a existência de uma ilusão. Retirada essa ilusão, as pessoas percebiam a realidade e ganhavam consciência do seu papel para a alterar. Hoje, toda a gente sabe que há 1% de muito ricos, com quase metade do rendimento, e 99% com o resto, mas isso não altera nada. Não há é ideia de que é possível mudar.
Eu, no livro, incluo três etnografias porque temos, na realidade, situações muito diversas. Há situações dos muitos que andam consigo no metropolitano, em escapismo, a tentar escapar-se, e não estou a falar necessariamente em imigrantes clandestinos; depois há aqueles que andam em lutas imediatas contra gente que acham que os pode prejudicar; e, finalmente, há alguns que se encontram noutra situação e que pensam que a mudança das suas circunstâncias passaria por uma ação determinada. Temos todas estas situações. O que se passa é que não se conseguiu até agora fazer crer a parte significativa da população que, se calhar, a resposta do escapismo e das lutas imediatas não é a melhor. Isso acontece porque as condições em que as pessoas vivem não as encaminham para formatos mais coletivos. Lembre-se das grandes manifestações que se fizeram contra a troika - e depois, depois o que é que fica? E como gerimos as derrotas e olhamos para elas e para os tempos que se seguem? Porque fomos derrotados? Sabemos as razões? É isso que é importante pensar.



ionline.sapo.pt

O cavalo da vida (um poema que já foi prosa)




O PROBLEMA
(...)
Nesta nossa passagem
para a outra margem,
convém amar afetuosamente um barco,
ou um remo,
ou uma bóia,
ou muitas bóias,
ou muitos barcos.
Todas as pessoas
a quem podermos lançar a mão,
que lancemos, para lhes dar um abraço;
a todos aqueles que de algum modo caminham,
ou nadam,
ou velejam junto a nós,
na travessia,
devemos nós prender a mão.
Que nunca nos larguem
os amigos, os irmãos, os filhos.
Porque vede: as pessoas perdem-se.

O cavalo da vida, enorme, torna-se furioso,
e consome-nos na solidão.
E é um grande problema
quando só vemos o grande cavalo na velhice,
quando o vozeirão se apaga e o ego esmorece.

'Não tomo conta de ti'.
Cuidai, enquanto é tempo*.


Uva Passa, "OProblema"
Eu cuido
conversavinagrada.blogspot.pt

sou


sou António e não sou santo
não tenho coroa nem manto
vim da terra assombrada
gosto de poesia e do canto
e com a cultura me encanto
e fiz dela a minha amada

não tenho raízes fidalgas ou nobres
sou da origem dos pobres
mas tenho honra e carácter
sou português aqui
e no Algarve nasci
Portugal é a minha terra mater

nas estradas da vida aprendi
e também nos livros que li
o meu porte e conduta
sou solidário, altruísta
sou livre, sou comunista
e não viro a cara à luta


António Garrochinho

Portugal é o maior exportador de bicicletas da União Europeia


No mês em que a bicicleta comemora 200 anos, o Eurostat fez um balanço sobre as importações e exportações deste meio de transporte na União Europeia. Portugal foi o maior exportador, em 2016.
Portugal é o maior exportador de bicicletas da União Europeia

Em 2016, os países da União Europeia exportaram um total de 11 milhões de bicicletas e importaram 17 milhões, segundo os dados do Eurostat.

Portugal lidera o "ranking" dos maiores exportadores de bicicletas da União Europeia, sendo responsável pela exportação de 15% das bicicletas exportadas entre os 29 estados-membro, revelou esta segunda-feira, 12 de Junho, o Eurostat numa nota publicada no âmbito das comemorações dos 200 anos deste meio de transporte. O segundo maior exportador é Itália (14%) e o terceiro os Países Baixos (13%).

Do total das bicicletas exportadas por países da União Europeia, 92% foram compradas por outros países da região, sendo o Reino Unido o líder das importações.

O Reino Unido compra 18% das bicicletas fabricadas pelos países da União Europeia.

Os restantes veículos são exportados para fora da UE, com a Suíça a representar 15% das bicicletas exportadas para fora da região, seguida pelos EUA (11%) e a Rússia (7%).

De fora da União Europeia chegam 42% das bicicletas, com Taiwan a liderar, representando 24% das bicicletas importadas de países fora da região.


www.jornaldenegocios.pt

Alfonsiva e o mar - vídeo e poema em português




Alfonsina e o Mar

Pela branda areia que lambe o mar
Sua pequena pegada não volta mais
Um caminho sozinho de pena e silêncio chegou
Até a água profunda
Um caminho sozinho de penas mudas chegou
Até a espuma
Só Deus sabe a angústia que te acompanhou
Que dores antigas calaram tua voz
Para que se recostasse embalada no canto
Das conchas marinhas
A canção que canta no fundo escuro do mar
A concha
Lá vai Alfonsina com tua solidão
Que poemas novos foste buscar?
Uma voz antiga de vento e sal
Te elogia a alma e a vai levando
E te vás para lá como nos sonhos
Adormecida, Alfonsina, vestida de mar
Cinco sereias te levaram
Por caminhos de algas e coral
E fosforescentes cavalos marinhos
Passearão ao teu redor
E os habitantes da água brincarão
Ao seu lado
Baixe a lâmpada um pouco mais
Enfermeira, deixe-me dormir em paz
E se chamarem diga que não estou
Diga que Alfonsina não volta mais
E se chamarem diga que não estou
Diga que fui embora
Lá vai Alfonsina com tua solidão
Que poemas novos foste buscar?
Uma voz antiga de vento e sal
Te elogia a alma e a vai levando
E te vás para lá como nos sonhos
Adormecida, Alfonsina, vestida de mar

13 de Junho de 1654: O Padre António Vieira prega o "Sermão de Santo António aos Peixes"


Peça oratória de Padre António Vieira, proferida três dias antes do jesuíta partir para Lisboa, na cidade de São Luís do Maranhão (Brasil) em 1654, na sequência dos litígios entre jesuítas e colonos do Brasil, por causa da escravização dos índios.

Construindo o sermão sob a forma de alegoria, Vieira faz considerações sobre virtudes e vícios humanos. Esta oratória apresenta uma construção literária e argumentativa notáveis. Fina ironia e forte sátira percorrem o texto assim como uma exuberante linguagem barroca, rica de sugestões alegóricas e de recursos estilísticos.

As partes constituintes do sermão são o exórdio, a invocação, a exposição ou informação, a confirmação e a peroração. 

No exórdio, Pe. António Vieira parte do conceito predicável "Vós sois o sal da terra". E, tal como Santo António,também ele dirige a sua palavra aos peixes, dado que não é ouvido pelos homens. 

Segue-se a invocação à Virgem Maria.

Durante a exposição ou informação, Pe. António Vieira explica as propriedades do sal e, por paralelismo, a importância das pregações para salvar os homens. Louva depois as virtudes dos peixes e repreende, em seguida,os seus vícios. 

Na confirmação, apresenta as qualidades dos peixes: o santo peixe de Tobias tem o dom de sarar da cegueira e repelir os demónios; a rémora tem força e poder; o torpedo possui a faculdade de eletrizar; o quatro-olhos tem a capacidade de vigiar. 

Na segunda parte da confirmação, Pe. António Vieira indica, primeiramente, numa visão de conjunto, os defeitos dos peixes. Em seguida, particulariza a crítica: os roncadores são convencidos e soberbos; os pegadores,parasitas e oportunistas; os voadores, ambiciosos e presunçosos; o polvo, hipócrita e traidor, contrapondo-se a Santo António, modelo de candura, sinceridade e verdade.

Na peroração ou epílogo, o pregador faz uma última advertência aos peixes. Exorta-os a sacrificarem a Deus o respeito e a reverência. 

Antes de terminar o sermão, com um admirável hino de louvor, Pe. António Vieira confessa-se pecador, em oposição aos peixes.

Sermão de Santo António aos Peixes. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013.
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Padre António Vieira
Santo António pregando aos peixes
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13 de Junho de 1908: Nasce Maria Helena Vieira da Silva


Natural de Lisboa, onde nasceu no dia 13 de Junho de 1908, Maria Helena Vieira da Silva instala-se definitivamente em Paris em 1928. Aí descobre a cor, em Matisse e Bonnard, e uma toalha aos quadrados, que retém de um pormenor de um quadro deste último, haveria de entrar em ressonância com a sua própria pintura.Inspira-se ainda em Paul Klee e frequenta, com o marido, Arpad Szenes, as aulas de Roger Bissière, pintor pós-cubista. O início da maturidade da sua obra pode datar-se a partir do quadro Pont transbordeur (1931). Nesta época são já patentes os elementos que hão de definir a sua pesquisa estética: uma conceção do espaço anti-renascentista, ao não assumir o volume ou a perspetiva como um fim em si, e uma conceção da pintura como"escrita", repetindo elementos, quadriláteros ou círculos, percorrendo as tramas das famosas Bibliotecas e Florestas. O mundo exterior surge neste universo através da cor e da luz, e frequentemente a memória da luz e dos azulejos lisboetas habitará as suas telas. Durante a Segunda Guerra Mundial partiu para o Brasil e nos quadros da época instala-se a angústia de um espaço povoado de criaturas fugazes e encurraladas. Guerra ou O Desastre (1942) é sem dúvida o quadro mais representativo destes tempos conturbados. Ao voltar para Paris,Vieira da Silva vê a sua reputação aumentar. O prémio da Bienal de São Paulo (1962) vem coroar um trabalho seguido atentamente pelo meio cultural português. Seguem-se as exposições, as retrospetivas, as consagrações.A sua pintura esteve patente, designadamente, na Europália, em Bruxelas, em 1992. Esse foi, precisamente, o ano da sua morte.   

Vieira da Silva. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2012.
Fundação Calouste Gulbenkian
  
Le désastre ou La guerre
 A Biblioteca - Maria Helena Vieira da Silva

13 de Junho de 1888 : Nasce Fernando Pessoa


Poeta, ficcionista, dramaturgo, filósofo, prosador, Fernando Pessoa é, inequivocamente, a mais complexa personalidade literária portuguesa e europeia do século XX. Após a morte do pai, partiu com sete anos para a África do Sul onde o seu padrasto ocupava o cargo de cônsul interino. Durante os dez anos que aí viveu, realizou com distinção os estudos liceais e redigiu alguns dos seus primeiros textos poéticos, atribuídos a pseudónimos,entre os quais se salienta o de Alexander Search. Com dezassete anos, abandona a família e regressa a Portugal,com a intenção de ingressar no Curso Superior de Letras. Em Lisboa, acaba por abandonar os estudos, sobrevive como correspondente comercial de inglês e dedica-se a uma vida literária intensa. Desenvolve colaboração com publicações (algumas delas dirigidas por si) como A República, Teatro, A Águia, A Renascença, Eh Real, O Jornal,A Capital, Exílio, Centauro, Portugal Futurista, Athena, Contemporânea, Revista Portuguesa, Presença, O Imparcial, O Mundo Português, Sudoeste, Momento. Com Mário de Sá-Carneiro e Almada Negreiros, entre outros,leva, em 1915, a cabo o projeto de Orpheu, revista que assinala a afirmação do modernismo português e cujo impacto cultural e literário só pôde cabalmente ser avaliado por gerações posteriores. Tendo publicado em vida,em volume, apenas os seus poemas ingleses e o poema épico Mensagem, a bibliografia que legou à contemporaneidade é de tal forma extensa que o conhecimento da sua obra se encontra em curso, sendo alargado ou aprofundado à medida que vão saindo para o prelo os textos que integram um vastíssimo espólio. Mais do que a dimensão dessa obra, cujos contornos ainda não são completamente conhecidos, profícua em projetos literários,em esboços de planos, em versões de textos, em interpretações e reflexões sobre si mesma, impõe-se, porém, a complexidade filosófica e literária de que se reveste. Dificilmente se pode chegar a sínteses simplistas diante de um autor que, além da obra assinada com o seu próprio nome, criou vários autores aparentemente autónomos e quase com existência real, os heterónimos, de que se destacam - o seu número eleva-se às dezenas - Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Alberto Caeiro, cada um deles portador de uma identidade própria; de uma arte poética distinta; de uma evolução literária pessoal e ainda capazes de comentar as relações literárias e pessoais que estabelecem entre si. A esta poderosa mistificação acresce ainda a obra multifacetada do seu criador, que recobre vários géneros (teatro, poesia lírica e épica, prosa doutrinária e filosófica, teorização literária, narrativa policial,etc.), vários interesses (ocultismo, nacionalismo, misticismo, etc.) e várias correntes literárias (todas por si criadas e teorizadas, como o paulismo, o intersecionismo ou o sensacionismo). Elevando-se aos milhares de milhares as páginas já publicadas sobre a obra de Fernando Pessoa, e, muito particularmente, sobre o fenómeno da heteronímia, uma das premissas a ter em conta quando se aborda o universo pessoano é, como alerta Eduardo Lourenço, não cair no equívoco de "tomar Caeiro, Campos e Reis como fragmentos de uma totalidade que convenientemente interpretados e lidos permitiriam reconstituí-la ou pelo menos entrever o seu perfil global. A verdade é mais simples: os heterónimos são a Totalidade fragmentada [...]. Por isso mesmo e por essência não têm leitura individual, mas igualmente não têm dialéctica senão na luz dessa Totalidade de que não são partes,mas plurais e hierarquizadas maneiras de uma única e decisiva fragmentação. (p. 31) Avaliando a posteriori o significado global dessa aventura literária extraordinária revestem-se de particular relevo, como aspetos subjacentes a essas múltiplas realizações e a essa Totalidade entrevista, entre outros, o sentido de construtividade do poema (ou melhor, dos sistemas poéticos) e a capacidade de despersonalização obtida pela relação de reciprocidade estabelecida entre intelectualização e emoção. Nessa medida, a obra de Fernando Pessoa constitui uma referência incontornável no processo que conduz à afirmação da modernidade, nomeadamente pela subordinação da criação literária a um processo de fingimento que, segundo Fernando Guimarães, "representa o esbatimento da subjetividade que conduzirá à poesia dramática dos heterónimos, à procura da complexidade entendida como emocionalização de uma ideia e intelectualização de uma emoção, à admissão da essencialidade expressiva da arte" bem como à "valorização da própria estrutura das realizações literárias" (cf. O Modernismo Português e a sua Poética, Porto, Lello, 1999, p. 61). Deste modo, a poesia de Fernando Pessoa "Traçou pela sua própria existência o quadro dentro do qual se move a dialética mesma da nossa Modernidade", constituindo a matriz de uma filiação textual particularmente nítida à medida que a sua obra, e a dos heterónimos, ia, ao longo da década de 40, sendo descoberta e editada, a tal ponto que, a partir da sua aventura poética, se tornou impossível"escrever poesia como se a sua experiência não tivesse tido lugar." (LOURENÇO, Eduardo, cit. por MARTINHO,Fernando J. B. - Pessoa e a Moderna Poesia Portuguesa - do "Orpheu" a 1960, Lisboa, 1983, p. 157.)

Fernando Pessoa. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2012.
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Fernando Pessoa em 1914
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"Fernando Pessoa em flagrante delitro": dedicatória na fotografia que ofereceu à namorada Ophélia Queiroz em 1929


Não sei quantas almas tenho
Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.


Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu.