sábado, 12 de agosto de 2017

Olhar para o euro sem paixão


No auge da crise, quando a taxa de desemprego atingiu o seu máximo, 42% dos portugueses estavam contra o euro, de acordo com o Eurobarómetro (um inquérito de opinião regular realizado pela Comissão Europeia). Hoje a taxa de aprovação da UE entre os portugueses é a mais alta desde que existe moeda única na Europa, conforme constata o jornalista Luís Reis Ribeiro num artigo publicado no Dinheiro Vivo.



O nível de eurocepticismo em Portugal tem uma relação directa com a taxa de desemprego, o que faz algum sentido, já que o euro nos retirou instrumentos fundamentais para combater o desemprego sem os substituir por outros (note-se que a taxa de desemprego ainda é hoje o dobro do que era no início do século). No entanto, esta tendência que os portugueses parecem ter para avaliar o euro com base na situação económica do país em cada momento tem dois problemas fundamentais.

Primeiro, sugere que tudo o que acontece de bom ou de mau à economia portuguesa depende da nossa presença no euro, o que não é verdade (pense-se no preço do petróleo ou da evolução do comércio mundial, que influenciam fortemente o que por cá se passa).

Segundo - o que é pior, mas não surpreendente - sugere que grande parte dos portugueses não avalia a participação de Portugal no euro em função dos seus impactos estruturais na economia nacional, mas apenas em função da situação conjuntural. Isto é um problema, pois é aí que reside o principal busílis da questão. 

ladroesdebicicletas.blogspot.pt

ver artigo abaixo

EUROBARÓMETRO O amor está no ar. 



 Relação entre os portugueses e a moeda única está no melhor momento de sempre. 

Pior altura foi quando país teve de pedir resgate e desemprego disparou 

 A taxa de aprovação dos portugueses em relação à União Económica e Monetária e ao euro propriamente dito é a mais elevada desde que a moeda única entrou em circulação, em 2002. 74% dos portugueses inquiridos para o estudo da Comissão Europeia conduzido no final de maio disseram ser “a favor” da UEM e da moeda que une 19 países. 

O número repete o máximo do outono de 2016. E a percentagem de portugueses que dizem ser “contra” o projeto europeu caiu para 21%, o valor mais baixo da série, de acordo com os dados do Eurobarómetro da primavera 2017, publicados esta semana. 

Os portugueses parecem ter acolhido com indiferença os comentários hostis do presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, em março, contra os países do sul da Europa que gastam o dinheiro emprestado “em álcool e mulheres”. Ou a menção do ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schäuble, em maio, que chamou “Ronaldo do Ecofin” ao colega português, Mário Centeno. Fizeram as pazes com o euro e gostam até mais da UEM do que a média dos europeus da zona euro, onde a aprovação ronda 73%. Ricardo Paes Mamede e Filipe Garcia, dois economistas, concordaram que as condições da economia interna são determinantes para esta opinião otimista. 

Quando o ambiente está mais distendido, a aprovação tende a subir. “Os índices de confiança estão atualmente em máximos. Penso que não é por haver euforia, é porque as pessoas sentem um enorme alívio, em primeiro lugar porque só agora é que se tornou evidente que o desemprego está a baixar de forma consistente e isso reflete-se”, diz Paes Mamede, que é professor de Economia no ISCTE. “Desde o início do euro, em 2002, que a história foi marcada pela subida do desemprego em Portugal”, “só recentemente é que as coisas mudaram para melhor no mercado de trabalho”. “Há um aspeto estrutural/demográfico que será relevante. Já temos esta moeda há 15 anos, as pessoas que hoje são inquiridas conhecem o euro há bastante tempo. 

Eventualmente, alguns nem se lembram do escudo ou nunca o usaram”, refere Filipe Garcia, da consultora IMF. “Apesar dos altos e baixos que teve, o euro é um projeto genericamente bem conseguido, veio trazer estabilidade, aumentou o poder de compra e a abertura ao exterior. Se as coisas agora estão melhor, as pessoas tendem a aprovar o que têm. É natural.” Hoje há amor no ar, mas nem sempre foi assim. A relação dos portugueses com a moeda única já teve dias maus. 

O ponto mais baixo aconteceu, sem surpresa, na primavera de 2011, onde menos de metade dos inquiridos (49%) aprovava a UEM e o euro. Foi na altura em que Portugal declarou bancarrota e foi obrigado a chamar a troika que emprestou dinheiro ao país e aplicou um duro programa de ajustamento que durou, formalmente, até meados de 2014. “Na altura, o discurso europeu era muito duro para os portugueses, como foi para a Grécia, um discurso cheio de repressão e retaliação”, lembra Paes Mamede. Em 2012, o ministro Vítor Gaspar anunciou, em nome do euro e do Pacto de Estabilidade, “o enorme aumento de impostos”. 

A austeridade propagou-se: houve cortes diretos de salários e pensões. No início de 2013, o desemprego já ia em quase 18%, um recorde histórico. “Claro que isso desanimou as pessoas”, concorda Filipe Garcia. No outono desse ano, a taxa de repúdio em relação ao euro atingiu o maior valor de sempre: 42% dos inquiridos portugueses estavam contra a UEM. “Espero que as elites europeias tenham aprendido com esses erros, com o que fizeram cá e na Grécia” e “que se continue a demonstrar, como acontece hoje em Portugal, que é possível fazer uma política diferente, menos obcecada com o défice, e continuar dentro do euro”, diz o professor do ISCTE. Filipe Garcia recorda ainda que “em 2013 toda a gente dizia agora é que é, a Grécia tem de sair do euro, e muitos cá em Portugal, sobretudo os partidos e economistas à esquerda diziam que Portugal também devia sair porque o euro era o principal culpado pelo afundanço do país”. “A opinião é moldada por estas ideias falsas ou erradas, também.” 

Os inquéritos do Eurobarómetro são semestrais. Este decorreu entre 20 e 29 de maio deste ano, tendo sido ouvidos 1089 cidadãos em Portugal com 15 anos ou mais. A nível da União Europeia (UE, 28 países) foram recolhidas as opiniões de 28.007 pessoas, segundo as informações da Comissão Europeia. Fonte: Comissão Europeia



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