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segunda-feira, 17 de julho de 2017

PODE O PASSADO MASCARAR-SE DE FUTURO?




Uma vez, conheci um homem que viajou no tempo. Mergulhou na vertigem espaço-temporal que o catapultou dos anos 80 para o presente e encontrei-o numa das margens da ria de Bilbau. Entrou na máquina que o trouxe ao futuro ainda jovem e saiu com o rosto enrugado pelo tempo. Respondeu-me que era mentira. Que tinha vindo do futuro e que aterrara no passado. De uma cidade cinzenta e industrial onde a luta de classes era o motor da história, observava agora como se afogava a rebeldia nas mornas águas da cidadania responsável. Curioso, perguntei-lhe como havia viajado no tempo. Um dia, a polícia emboscou-o e metralhou-o. Moribundo, conseguiu sobreviver e viveu sequestrado durante três décadas nos cárceres espanhóis.

Mas às vezes, mesmo à deriva, o futuro acaba por dar à costa. Quando há força colectiva para organizar o porvir o horizonte pode transformar a cultura de um povo. Em 1968, quando as mulheres e os homens de Cabo Verde e Guiné-Bissau forjavam a independência sob a dura melodia das kalashnikov, na outra ponta do Atlântico os estivadores de Baltimore carregavam um navio com modernos instrumentos para alimentar a música electrónica. Submetido a terríveis condições atmosféricas, a tripulação perdeu o controlo da embarcação e dois meses depois de desaparecer dos radares marítimos o navio deu à costa da ilha de São Nicolau. Apesar da guerra, o PAIGC deu a ordem de distribuir os instrumentos eléctricos pelas populações das poucas localidades com electricidade e a embarcação fantasma acabaria por transformar a música cabo-verdiana.

Também há aquelas histórias de quem ficou preso na corda bamba entre o passado e o futuro. Depois de empreender uma fuga marítima, o mais famoso dos poetas turcos foi encontrado por um cargueiro romeno. Nazim Hikmet escapava da noite turca e procurava a via para Moscovo quando o capitão que levava na cabine um cartaz que exigia a libertação do mesmo Nazim Hikmet se dispunha a entregá-lo às autoridades turcas por não ter autorização para o recolher. Felizmente, o telégrafo cumpriu o seu desígnio e devolveu o futuro ao poeta comunista.

São tantas as metáforas que não se compreende como tropeçámos e caímos novamente no vazio do passado. No mesmo ano em que o azar levou o futuro musical a Cabo Verde, a poesia morria debaixo de uma calçada que já não cheira a Verão porque a madrugada se afogou na tormenta social-democrata em Paris. A força da razão ou a razão da força na derrota do futuro em Moscovo quando Gorbachev enterrou a União Soviética? O independentista basco que viajou do futuro veio de um mundo em que as relações laborais mais favoráveis serviam de muro ao passado. Neste compasso em que dançamos sozinhos e fazemos culto à individualidade, interpretamos a cidadania obediente como sinónimo de civilidade.

Vivemos em tempos em que o descomprometimento e a anti-política - que é também política - se encaixam perfeitamente na precariedade dos dias que correm apressados rumo ao passado. As relações sociais afundam-se no silêncio da mediocridade e da precariedade. Somos mais ecológicos porque somos mais limpos ou somos mais limpos porque nos foi imposto? Somos inimigos do ruído porque acreditamos no respeito pelo espaço do outro ou esse respeito não é mais do que fruto do medo? Somos mais livres e descontraídos nas nossas relações pessoais ou isso é afinal resultado das contradições capitalistas e não da emancipação sexual e emocional? É a mesma coisa ser-se moderno que ser-se progressista? Pode o passado mascarar-se de futuro?

manifesto74.blogspot.pt

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