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segunda-feira, 17 de julho de 2017

Castro Marim: um Algarve longe da confusão




Castro Marim Flor de sal colhida à mão, peixe do Guadiana, fruta da época apanhada no quintal. Aqui, não é preciso olhar para longe em busca daquilo que é bom. Com a Companhia das Culturas como ponto de partida e de chegada, traçamos o roteiro de um Algarve que viu chegar a modernidade, os empreendimentos, as modas, mas não se deixou deslumbrar. Afinal, matéria para deslumbramento já ele tem por natureza.

Francisco Palma Dias apresenta o primeiro prato que é posto sobre a mesa. Um consomé
de ruderais, «plantas que crescem onde há ocupação humana »: urtigas, dentes-de-leão, talos de cardo. Tudo apanhado em redor da casa. Prova-se e tem o sabor de um dia de primavera em campo algarvio. Sobre a mesa da Tal Qual – Petiscaria há também cenouras à marroquina, azeite de produção própria de azeitona maçanilha e pão de São Pedro de Solis, feito a partir de trigos autóctones.
O desfile continua: salada de acelgas e queijo de cabra, favas «em leite» (isto é: ainda tenras, de primavera) com paio do cachaço de porco preto, fritada de silarcas com talos e folhas de cardo, estupeta de atum com nêsperas e borragem. Por fim, laranja laminada com azeite, mel e nogado de pinhão, uma sobremesa de dias quentes, gulosa sem parecer culposa. Tudo produzido na propriedade, na aldeia, no concelho ou no Algarve, por esta ordem. Mesmo o vinho vem de Tavira, assinado pela Casa Santos Lima – o Al-Ria, em rosé e num tinto reserva que é uma surpresa.
Francisco nasceu em Castro Marim, filho do médico da terra. Cursou Comunicação em Bruxelas, viveu depois com uma comunidade budista e acabou por estar ligado à abertura dos primeiros restaurantes vegetarianos de Lisboa. Por volta dos seus cinquentas, regressou à fazenda da avó, na aldeia de São Bartolomeu, onde passara as férias de infância. Custava-lhe imaginar o sítio condenado ao abandono, portanto tomou-lhe a mão, após a morte do pai. Recuperou a atividade de produção de alfarroba, figo e laranja nestes 40 hectares de bosque e pomar à beira da EN125.
Há nove anos, decidiram, ele e a mulher, Eglantina Monteiro, transformar a fazenda na Companhia das Culturas. «Um anti-resort, como alguém já nos chamou», brinca ela. Nove quartos e quatro apartamentos sem televisão nem wi-fi (isto é: há, mas apenas na sala comum). Um reduto de tranquilidade num Algarve em ebulição. Castro Marim fica a cinco quilómetros na direção do Guadiana. E é, ela própria, uma cápsula do tempo, ruas tranquilas, casas baixas e sem grandes delírios arquitetónicos à parte dos rendilhados da arquitetura tradicional algarvia. E um horizonte largo de campo para poente, e salinas em todas as outras direções.
Pensa-se, à partida, que não há muito que ver nesta vila com pouco mais de três mil habitantes. Até que se sobe ao castelo, imponente não só pela sua posição privilegiada, 360 graus de panorâmica desimpedida, mas também pelo tamanho – hectare e meio. Entre muralhas, os espaços livres estão ocupados por estruturas de madeira – palanques, telheiros, até uma berlinda. Os Dias Medievais só acontecem em agosto, mas a infraestrutura do evento é mantida ao longo do ano.








Castro Marim fez parte das principais rotas comerciais da Península Ibéria e do Mediterrânico. O sal foi moeda de troca e hoje é um bem a descobrir.
Castro Marim foi a primeira sede da Ordem de Cristo, mas a sua importância vem de muito antes. De séculos anteriores à era cristã, marcados pelo contacto com Cádis, com a costa de Málaga e, indiretamente, com Tiro, Cartago, Grécia. A então Baesuris entra nas grandes rotas comerciais e torna-se um foco de entrada de inovação – a tecnologia de trabalho do barro e de moagem dos cereais, a introdução de espécies domesticadas como o burro, até a entrada de alguns produtos na alimentação, como os matriciais coentros ou a lide da vinha e do olival.
O sal, moeda de troca para estas relações comerciais, é a grande riqueza de Castro Marim. E a flor de sal artesanal é a joiada coroa. Das salinas em redor saem os produtos da sobejamente conhecida Salmarim, mas também de outras marcas que, embora com menor notoriedade, extraem o «ouro branco» algarvio. Entre elas, a Terras de Sal, cooperativa local de produtores, que tem um armazém / sala de embalamento a fazer também as vezes de loja na Rua de São Sebastião. Estão lá flor de sal tradicional, preparados para tempero de saladas e de carnes, mas também algumas inovações, sob a marca Raw, como flor de sal com vinho do porto.
Três portas acima, no antigo mercado municipal agora convertido em posto de turismo, outra montra de produtos regionais – não só o sal, que tem um balcão dedicado, mas também cestaria, compotas, infusões, produtos de cosmética. Um mercado algarvio em ponto pequeno, com música de Paco de Lucía a preencher o ambiente. Afinal ele tem raízes em Castro Marim: a sua mãe, Lúcia Gomes, era algarvia. E, em 1981, o mago da guitarra dedicou um disco a ambas – à mãe e às raízes. Chamou-lhe Castro Marín, banda sonora perfeita para um passeio entre salinas.


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